segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Leitura espiritual sobre a castidade (I)


Filotéia, por São Francisco de Sales, bispo e doutor da Igreja.


CAPÍTULO XII

Necessidade da castidade



A castidade é o lírio entre as virtudes e já nesta vida nos torna semelhantes aos anjos. Nada há de mais belo que a pureza e a pureza dos homens é a castidade. Chama-se a esta virtude honestidade; e à sua prática honra.

Denomina-se também integridade; e o vício contrário, corrupção. Numa palavra, entre as virtudes tem esta a glória de ser o ornamento da alma e do corpo ao mesmo tempo.

Nunca é lícito usar dos sentidos para um prazer impuro, de qualquer maneira que seja, a não ser num legítimo matrimônio, cuja santidade possa por uma justa compensação reparar o desaire que a deleitação importa. E no próprio casamento ainda se há de guardar a honestidade da intenção, para que, se houver alguma impefeição no prazer, não haja senão honestidade na vontade que o realiza. O coração puro é como a madrepérola, que não recebe uma gota de água que não venha do céu, pois ele não consente em nenhum prazer afora o do matrimônio que é ordenado pelo Céu. Salvo isso, nem sequer nele pensa voluptuosa, voluntária e demoradamente.

Quanto ao primeiro grau desta virtude, Filotéia, não admitas a menor coisa de tudo aquilo que é proibido como desonesto, isto é, geralmente falando, todas as coisas semelhantes que se fazem fora do estado matrimonial ou no matrimônio contra as regras deste estado.

Quanto ao segundo grau, restringe, quanto possível for, as deleitações supérfluas e inúteis, posto que honestas e permitidas.

Quanto ao terceiro grau, não te afeiçoes aos deleites necessários e de preceito; pois, embora seja necessário conformar-se aos que o são segundo a instituição e fim do matrimônio, não se deve apegar a eles o espírito e o coração.

Demais, esta virtude, é sumamente necessária a todos os estados. No da viuzez a castidade deve ser de uma generosidade extrema, para precaver-se dos prazeres sensuais, não só quanto ao presente e ao futuro, mas também quanto ao passado; lembrando prazeres já havidos, a imaginação excita más impressões.

É por isso que Santo Agostinho tanto se admirava da pureza de seu amado Alípio, que já não conservava nem o sentimento nem a lembrança de sua vida desregrada anterior. E, com efeito, é sabido que os frutos ainda inteiros se conservam facilmente por muito tempo; mas, se foram cortados ou machucados, o único meio de conservá-los é pô-los em conserva com açúcar ou mel. Do mesmo modo eu digo que, enquanto a castidade estiver intacta, se têm muitos meios de conservá-la; mas, uma vez perdida, só pode ser conservada pela devoção que, pelas suas doçuras, muitas vezes tenho comparado ao mel.

No estado virginal a castidade exigem uma muito grande simplicidade de alma e uma consciência muito delicada, para afastar toda sorte de pensamentos curiosos e elevar-se acima de todos os prazeres sensuais, por um desprezo absoluto e completo de tudo o que o homem tem de comum com os animais o que mais convém aos brutos que a eles.

Nem por pensamento duvidem essas almas que a castidade é muito superior a tudo o que é incompatível com a sua perfeição; pois o demônio como diz S. Jerônimo, não podendo suportar esta salutar ignorância do prazer sensual, procura excitar nestas almas ao menos o desejo de conhecê-los e sugere-lhes idéias tão atraentes, embora inteiramente falsas, que muito as perturbam, levando-as, como acrescenta este santo padre, a dar imprudentemente grande estima ao que não conhecem.

É assim que muitos jovens, seduzidos pela ilusória e tola estima dos prazeres voluptuosos e por uma curiosidade sensual e inquieta, se entregam a uma vida desregrada, com perda completa dos seus interesses temporais e eternos; assemelham-se a borboletas que, pensando que o fogo é tão doce quão belo, se atiram a ele e se queimam nas chamas.

"Quanto aos casados, é certo que a castidade lhes é necessária, muito mais do que se pensa, pois a castidade deles não é uma abstenção absoluta dos prazeres carnais, mas refrear-se neles. Ora, como aquele preceito -- 'Irai-vos e não pequeis' -- é no meu entender mais difícil que o outro -- 'Não vos ireis nunca' -- por ser bem mais fácil evitar a raiva do que regrá-la, assim também é mais fácil a abstenção total dos prazeres carnais do que a moderação neles.

É certo que a santa licença que o matrimônio confere tem uma força e virtude particular para apagar a concupiscência, mas a fraqueza dos que usam dela passa facilmente da permissão à dissolução, do uso ao abuso. E como vemos muitos ricos roubarem, não por indigência, mas por avareza, também se vêem muitos casados excederem-se por intemperança e luxúria; porque a sua concupiscência é como um fogo cheio de veleidades, ardendo aqui e ali, sem se fixar em parte alguma. É sempre perigoso tomar remédios violentos. Tomando-se demais, ou se não forem bem dosados, prejudicam imensamente. O matrimônio, entre outros fins, existe para remédio da concupiscência e sem dúvida é ótimo remédio, mas violento e por isso perigoso, se não for usado com discrição.

Noto ainda que, além das longas doenças, os vários negócios separam muita vez os maridos de suas mulheres. E é por isso que os casados precisam de duas espécies de castidade: uma para a continência absoluta, naqueles casos de separação forçada, a outra, para a moderação quando estão juntos, na vida normal. Viu Santa Catarina de Sena muitos condenados no inferno sofrendo atrozmente pelas faltas contra a santidade matrimonial. E isso, dizia ela, não tanto pela enormidade do pecado, porque assassínios e blasfêmias são pecados muito maiores, mas porque os que caem naqueles não têm escrúpulos e continuam assim a cometê-los por muito tempo. Já vês pois que..."

A castidade é necessária para todos os estados. Segui a paz com todos - diz o Apóstolo - e a santidade sem a qual ninguém verá a Deus. Ora, é de notar que por santidade ele entende aqui a castidade, como observam S. Jerônimo e S. Crisóstomo. Não, Filotéia, ninguém verá a Deus sem a castidade; em seus santos tabernáculos não habitará ninguém que não tenha o coração puro e, como diz Nosso Senhor mesmo, os cães e os desonestos serão desterrados daí; e: "Bem-aventurados os limpos de coração, por que eles verão a Deus".

[São Francisco de Sales, FILOTÉIA ou Introdução à vida devota, Livro III, capítulo XII, grifos nossos].

sábado, 4 de agosto de 2012

A Justa Estima do Outro


"Amarás o teu próximo como a ti mesmo"

Nós não podemos dizer que amamos a Deus se não amamos os nossos irmãos. Deus nos criou para amar a Ele e aos nossos irmãos por amor a Ele, por isto não basta amar a Deus e amar o homem de forma separada e de uma maneira qualquer.

Nós amamos por que Deus nos amou primeiro e Ele nos dá, como ponto de referência e parâmetro do amor que devemos ao irmão, o amor que temos por nós mesmos.

Uma coisa é certa: PARA AMAR OS OUTROS É PRECISO AMAR ANTES A SI MESMO. Precisamos aprender a nos amar, a termos a justa estima de nós mesmos, a verdadeira imagem, a auto-imagem correta e normal, isto é, saber que a nossa imagem se acha fundamentalmente dotada de elementos positivos, com contornos limitantes que dificultam o agir, mas não constituem a essência do nosso ser. O centro do ser é positivo, mas no seu todo o ser é limitado. Esta é a condição humana. Existem em todo homem e em toda mulher virtudes e defeitos, riquezas notáveis e impulsos incoerentes com a estrutura pessoal, mas que são parte dela. Quem se desvaloriza ou então quem acredita ser mais do que os outros, dificilmente é um bom amigo de si mesmo. Cada qual, de fato, tem a própria medida. Não tem sentido aspirar a coisas muito grandes, como também é um absurdo julgar-se um miserável.

É sábio quem procura a própria medida, porque, na verdade, é aquela que mais lhe assenta, isto é, se identificar a nível ontológico. Somente neste nível podemos perceber a positividade radicadaem nossa natureza de homens e de criaturas de Deus, chamados a ser conformes à imagem de seu Filho.

A autêntica experiência de Deus nos leva ao amor de nós mesmos. Quanto mais conhecemos a Deus, mais descobrimos que ele nos ama. Quanto mais nos aproximamos da fonte do amor, mais nos tornamos sempre mais dignos de amor.

O AMOR AO PRÓXIMO:

Chegados a este ponto, é possível amar o próximo. Somente uma pessoa em paz consigo mesma pode amar também o irmão. E o amará precisamente como ama a si mesma. Terá um amor que não está fundamentado nas qualidades e defeitos, mas que vê o valor radicado em seu próprio ser, isto é, não basta não pensar bem, não se trata de fechar os olhos sob aspectos negativos dos outros, nem simples gesto de cortesia. O amor verdadeiro leva a uma percepção profunda do outro, a um olhar agudo e límpido para descobrir o valor interior do outro, a um abrir-se a verdade do outro, quer dizer, TODO SER HUMANO É DIGNO DE SER AMADO, INDEPENDENTEMENTE DE SUA CONDUTA OU DE SEUS MERECIMENTOS E QUALIDADES. O amor aos nossos irmãos deve estar ligado aos valores fundamentais da sua existência e como tal é incancelável, apesar da sua aparente indignidade.

A estima sincera do outro é o primeiro ato de amor, mas eficaz, significativo e verdadeiro, pois um ato de caridade sem a estima sincera do outro, é apenas beneficência, que pode provocar humilhação ou engano, e nós não somos chamados a sermos apenas beneficentes, mas bondosos e amorosos com os nossos irmãos.

É sinal de estima sincera e de amor verdadeiro estimular o outro para o seu bem, que é estimular o ou outro para o centro da vontade de Deus. Descobrimos então a relação direta e indireta entre a imagem que temos do outro e seu crescimento, porque muitas vezes assumimos conscientemente, ou não, um comportamento que induz sutilmente o outro a agir de acordo com a imagem que tínhamos feito dele: quanto mais formos rígidos nessa imagem mais estimularemos o comportamento correspondente. Muitas vezes estimulamos o outro a ser exatamente aquilo que, depois, contestamos e condenamos (naturalmente sem má intenção).

Precisamos entender que até mesmo a simples maneira de ver o outro tem influência sobre ele e sobre a imagem que ele tem de si, como os julgamentos, mesmo os que não manifestamos, e o tipo de relacionamento que estabelecemos com ele.

A caridade verdadeira nasce do coração e do modo de ver o outro na sua verdade, no seu valor como pessoa, como ser humano. É ingênuo pensar que podemos ser caridosos simplesmente porque não manifestamos nossos julgamentos negativos, iludindo-nos de poder cobrir tudo com o amor. É importante sabermos separar a fraqueza do irmão e o seu valor como pessoa para assumirmos a responsabilidade de que temos por ele e pelo seu crescimento. Portanto com as suas quedas eu sofro, com suas virtudes fico feliz, com o seu sofrimento procuro ajudá-lo. Não é possível sermos santos e agradar a Deus, sem tomar conhecimento de quem está ao nosso lado. Muitas vezes ignoramos "onde estava" nosso irmão, como Caim, que não quis se sentir responsável pelo irmão (Gen 4, 9).

A experiência de Deus que não passa pelo irmão é apenas ilusão, e da ilusão não pode vir amor verdadeiro e sincero.

Quem estima sinceramente seu irmão se sente responsável por ele, pela sua salvação, fará de tudo para estimulá-lo, dia-a-dia, para o bem, para Deus. Mesmo que o irmão se desvie do verdadeiro bem com o seu comportamento, não deixará de descobrir e crer na sua capacidade positiva de melhorar, porque ele é muito melhor do que parece e poderá ser fiel àquele projeto que Deus tem para ele. Essa confiança no outro é uma força estimuladora, é maior do que o pecado e gera:

- A força de vencer o mal porque é capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção, de dar novamente esperança ou de convidar o outro de novo a caminhar para Deus, nem que seja juntos quando o outro não está muito interessado.

- Pode mudar o irmão, ainda que a longo prazo, com muita paciência e discreção, sem paternalismo, mas com desejo sincero de levá-lo a crescer na amizade com Deus.
- Desta forma torna-se para o irmão um canal da graça de Deus, pois sua Palavra e vida transmitem-lhe, direta ou indiretamente, mas sempre com entusiasmo e convicção, a mesma mensagem da busca comum de Deus.

É um amor que se caracteriza pela preocupação pela existência do outro. Realiza-se no dar sem expectativa de retribuição, em viver sem esforço o dom daquilo que é necessário à pessoa amada.
A sexualidade é transformada em nível mais alto, em sentimento oblativo. O amor em tal contexto supera dia após dia suas limitações e tende a expandir-se até o nível da região profunda do ser, indo aí desfrutar de suas riquezas.
Quando duas pessoas vivem neste clima espiritual, o encontro significa comunhão verdadeira porque é uma comunhão a nível do ser. Existe tamanha reciprocidade que permite alcançar o nível da unidade, da comunicação e da gratuidade. A comunhão é tão forte que se chega a desejar dar a vida pelo outro, a ponte de não hesitar em derramar o próprio sangue, se necessário. É um amor onde quase não há lutas, necessidades, expectativas. Tem como recompensa única a alegria da própria pessoa amada. É este amor que vê no outro um valor enorme, e ao mesmo tempo relativo ao amor que dar a Deus. É um amor gratuito, feito de presença, de proximidade, atenção e serviço (aquilo que é meu é teu). Este amor supera o instinto e o sensível. "É osso dos meus ossos, e carne da minha carne" (Gen 2, 23).

O QUE É A VERDADEIRA AMIZADE:
O verdadeiro amigo não adula e nem rejeita o outro, mas o estimula a amar como ele ama. Isto é que é a sua felicidade, amá-lo como a si mesmo.
Não é um tipo de piedosa associação de ajuda mútua que procura eliminar a solidão através de gratificações recíprocas, mas que na prática acaba por frear a caminhada de experiência de Deus e de maturidade humana.
Nossos relacionamentos não devem ser de apenas bons vizinhos, muito superficiais para serem fonte de estímulo recíproco na busca de Deus.
Não deve existir entre nós ciúmes, competições, dominações, pois não somos propriedade dos outros e nem os outros são propriedades nossas. Não podemos querer que os outros sejam conforme nós imaginamos ou desejamos, antes devemos amá-lo a partir daquilo que nos incomoda nele. Não amamos para transformar ninguém e sim para levá-los a experiência com Deus, para levá-los ao amor de Deus, para levá-los a verdade de Deus e isto não se realiza pela força das nossas palavras, nem pelas nossas criticas. Não podemos levar os nossos irmãos no peito e na raça, tentando enquadrá-los dentro daquilo que gostamos e que aceitamos.

Caminhos para crescer no amor
1.Atenção ao outro (como Maria): a Deus e aos homens.

2. Comunicação profunda com o outro: capacidade de expressar através da linguagem todo seu dom e também capacidade de escutar em profundidade.

O QUE SIGNIFICA ESCUTAR EM PROFUNDIDADE:

Entrar no mundo da interioridade do outro com o coração disposto a acolher, não julgar, serenidade e calma, paciência, interesse pelo outro e pela vida que leva, por seus sentimentos. A comunicação não exige muito falar. Comunicar não significa perder a autonomia e a liberdade de pensamento.

3. Respeito pela autonomia do outro:
O amor profundo não manipula as pessoas, como se manipula objetos, porque só existe verdadeiro crescimento a partir de dentro. O respeito pela autonomia do outro é amor porque onde existe respeito tem-se uma presença discreta, que não impõe, que não ergue barreiras e obstáculos; a fé constante na capacidades de auto-desenvolvimento das forças vitais que orientam o outro para aquilo que lhe faz bem.
A maioria das pessoas tem o secreto e inconsciente receio de que a autonomia do outro crie problemas, traga obrigações e por isso tende a oferecer inúmeros conselhos, a ficar projetando soluções.
Amar é pôr-se diante do outro numa atitude de grande respeito por suas opções e tomadas de decisão, suas demoras, seus ritmos de crescimento, para que sua autonomia amadureça sempre mais e a relação vá progredindo em direção à profundidade.

4. Expressão de amor profundo:
O amor tem que traduzir-se em atos que exprimam aquilo que se vive, traduzir-se em gesto que gerem outro amor. Não basta dizer a uma pessoa que você a ama. É necessário também que ela o perceba através dos atos, faça o que for necessário para que, de sua parte, floresça a confiança, a familiaridade, a intimidade.
Que expressão escolher? Como manifestar o amor profundo?
dar o melhor de si mesmo ao outro. Todas as suas expressões sensíveis e visíveis deveriam seguir essa trajetória (a sensibilidade, os impulsos, a própria sexualidade).
Exemplos: uma saudação, uma carta, um encontro, o tratar-se com familiaridade e intimidade, um aperto de mãos, um beijo, um gesto de carinho, uma ajuda esperada, a lembrança de uma data particular, uma palavra de estima, de conforto e de estímulo.
Dar alguma coisa ou dar-se a si mesmo a uma pessoa implica uma renúncia que empobrece, mas esta renúncia produz alegria, pois o ato de dar produz mais alegria do que o de receber, não pela privação ou pela renúncia em si, mas pelo dom que exprime a própria vitalidade oblativa, a própria fecundidade.
Este movimento de dar provoca o crescimento do outro que recebe e de quem dar. Nem sempre no dom há alegria, e tanto mais falta alegria quanto mais estiver presente a procura de si mesmo. Mas sempre há alegria quando a pessoa se preocupa ativamente com a vida e o bem daquele que se ama e ao qual se dá alguma coisa. O amor se torna assim não um gesto sentimental, mas um ato originado pela "vida profunda", que intui no outro uma necessidade, confessada ou não, e lhe dá socorro, prevenindo-a.

5. O amor leva ao conhecimento da pessoa (ver além das aparências):
Sem conhecimento não existe amor. O conhecimento da pessoa que se quer amar não se detém na periferia, mas chega ao fundo de sua vida e de seu ser. Amar é conhecer o núcleo desta vida e deste ser escondido nela. Toda pessoa é muito mais do que aquilo que aparenta aos olhos dos outros.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Voto Cristão


A participação do católico na vida cívica é um dever, fundamental na própria fé cristã. Nossa prática religiosa está, pois, intimamente inserida no meio social, onde a Providência nos colocou. E a escolha dos dirigentes faz parte integrante do exercício da cidadania em um regime democrático.

Compreende-se bem esse raciocínio quando toda a nossa existência em suas várias manifestações, está sob a dependência de Deus. Não se dá uma dicotomia, aliás sensivelmente prejudicial. O fiel obedece ao Senhor enquanto reza, vai à missa, cumpre os mandamentos, mas também quando participa de atividades civis.

Em um período de eleições, como o que vivemos, esse compromisso se dá de diversos modos. Um deles com a presença nas urnas. A abstenção revela falha no exercício de uma obrigação.

O concílio Vaticano II nos adverte: "Todos os cidadão se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que temos, de fazer uso do voto livre em vista da promoção do bem comum ("Gaudium etspe"nº75).

Além de ir votar, urge fazê-lo bem, segundo a própria consciência, formada por ditames éticos. A ele submetemos as propostas de cada candidato

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Vocação à santidade


Com a queda de Adão, o pecado destruiu o plano divino da santificação do homem. Nossos primeiros pais, criados à imagem e semelhança de Deus, em estado de graça e santidade, elevados à dignidade de filhos de Deus, foram precipitados num abismo de miséria, arrastando consigo todo o gênero humano. Durante séculos e séculos, o homem geme no seu pecado; este cavou um abismo insuperável entre Deus e a humanidade, e o homem geme para além do abismo, absolutamente incapaz de se levantar.

Para conseguir o que o homem não pode, para destruir nele o pecado e restituir-lhe a graça, promete-lhe Deus um Salvador. A promessa, feita e renovada através dos séculos, não se restringe somente ao povo de Israel; interessa a toda a humanidade. Já Isaías o havia pressentido: “Virão os povos em multidão, dizendo: ‘Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine seus caminhos’” (Is 2,3). E declarou Jesus expressamente: “Digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente e sentar-se-ão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos céus” (Mt 8,11).

O Senhor Jesus veio salvar a todos os povos, e convidar todos à mesa de seu Pai, no Reino dos céus. “Quer Deus todos os homens salvos e que cheguem todos ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). A fim de que se salvem todos, “enviou seu Filho unigênito, para que, quem quer que nele creia, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Assim amou Deus o mundo. Se foi Israel o depositário da divina promessa e recebeu a missão de transmiti-la de geração em geração, não é, porém, o único beneficiário. Desde a antigüidade, no plano de Deus, foi destinada a promessa a toda a família humana: ninguém está excluído. Jesus, Salvador, veio para cada homem e a cada homem oferece os meios necessários à sua santificação.

Assim dirige S. Paulo aos cristãos de Corinto sua primeira carta: “Aos santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos com todos aqueles que em todo lugar invocam o nome do Senhor nosso Jesus Cristo” (1Cor 1,2). Todos os que crêem em Cristo, seja de que povo for, são efetivamente “chamados a ser santos”; o que, na linguagem do Apóstolo, significa sobretudo pertencerem, serem consagrados a Deus mediante o Batismo e, portanto, em força desta consagração, tornarem-se pessoalmente santos.

Assim como a salvação, a santidade é oferecida a todos os homens. “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 11,44), havia dito Deus ao povo de Israel; e Jesus especificou: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5,48). Estas palavras, não as dirigiu o Senhor a um grupo escolhido; não as reservou aos apóstolos, aos íntimos, mas pronunciou-as diante da multidão que o seguia. Ele, o Santo por excelência, veio santificar todos os homens e a todos oferece os meios necessários, não só para a salvação, mas também para a santificação: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Não se cansa a Igreja de repetir e inculcar este ensinamento do Senhor: “Ninguém creia que... (a santidade) seja para poucos homens escolhidos dentre muitos, enquanto os outros podem limitar-se a um grau inferior de virtude... Absolutamente todos... sem exceção alguma, estão compreendidos nesta lei” (Pio XI, AAS [1923]: 50).

De modo particular, o Concílio Vaticano II reafirmou a universal vocação à santidade: “Todos na Igreja, quer pertençam à hierarquia, quer sejam por ela dirigidos, são chamados à santidade... O Senhor Jesus, mestre e modelo divino de toda perfeição, a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição, pregou a santidade de vida, de que ele mesmo é o autor e consumador” (LG 39.40). Não pode o homem encontrar em si mesmo recursos e forças para santificar-se; somente Deus é santo e somente Deus pode santificá-lo. O próprio Deus quer ser o santificador das suas criaturas e, em Jesus bendito, oferece em profusão, a cada homem, os meios para que se santifique.
Extraído de: Madalena, Gabriel de Sta. Maria. Intimidade Divina. São Paulo: Loyola, 1988, pp. 25-26.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

“Tu sabes que te amo!”

“Antes que fosses formado no ventre de tua mãe, eu já te conhecia; antes que saísses do seio materno, eu te consagrei” (Jr 1, 5). A Palavra dirigida por Deus ao profeta Jeremias toca-nos pessoalmente. Ela evoca o desígnio que Deus tem sobre cada um de nós. Ele conhece-nos individualmente, porque desde a eternidade nos escolheu e amou, confiando a todos uma específica vocação dentro do plano geral da salvação. 

Queridos jovens, não duvideis do amor de Deus por vós! Ele reserva-vos um lugar no seu coração e uma missão no mundo. A primeira reação pode ser o temor, a dúvida. São sentimentos que, antes de vós, o próprio Jeremias experimentou: “Ah! Senhor Javé, não sou um orador, porque sou ainda muito novo!” (Jr 1, 6). A tarefa parece imensa, porque assume as dimensões da sociedade e do mundo. Mas não esqueçais que, quando chama, o Senhor dá também a força e a graça necessárias para responder ao chamamento. 

Não tenhais medo de assumir as vossas responsabilidades: a Igreja tem necessidade de vós, precisa do vosso empenho e da vossa generosidade; o Papa tem necessidade de vós e, no início deste novo milênio, pede-vos que leveis o Evangelho pelas estradas do mundo. 

No Salmo Responsorial escutamos uma pergunta que no mundo poluído de hoje ressoa com uma particular atualidade: “Como poderá o jovem manter puro o seu coração?” (Sl 119/118,9). Escutamos também a resposta, simples e incisiva: “Guardando a Vossa palavra” (ibid.). Portanto, é preciso suplicar o gosto pela Palavra de Deus e a alegria de poder testemunhar algo que é maior do que nós: “Alegro-me em seguir os Vossos desígnios...” (ibid., v. 14). 

A alegria nasce também da consciência de que inúmeras outras pessoas no mundo acolhem, como nós, as “ordens do Senhor” e as tornam substância da sua vida. Quanta riqueza na universalidade da Igreja, na sua “catolicidade”! Quanta diversidade segundo os países, os ritos, as espiritualidades, as associações, movimentos e comunidades, quanta beleza e, ao mesmo tempo, que profunda comunhão nos valores e adesão comuns à pessoa de Jesus, o Senhor! 
Percebestes, vivendo e orando juntos, que a diversidade dos vossos modos de acolher e de exprimir a fé não vos separa uns dos outros nem vos põe em concorrência. Ela é apenas uma manifestação da riqueza daquele único e extraordinário dom que é a Revelação, do qual o mundo tanto precisa. 

No Evangelho que há pouco escutamos, o Ressuscitado faz a Pedro a pergunta que determinará toda a sua existência: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,16). Jesus não lhe pergunta quais são os seus talentos, os seus dons, as suas competências. Nem sequer pergunta àquele que pouco antes o tinha traído, se de agora em diante lhe será fiel, se já não vai vacilar. Pergunta-lhe a única coisa que conta, a única que pode dar fundamento a um chamamento: tu me amas? Hoje, Cristo dirige a mesma pergunta a cada um de vós: tu me amas? Não vos pergunta se sabeis falar às multidões, se sabeis dirigir uma organização, se sabeis administrar um patrimônio. 

Pede-vos que o ameis bem. O resto virá como conseqüência. Com efeito, caminhar nas pegadas de Jesus não se traduz imediatamente em coisas a fazer ou a dizer, mas antes de tudo no fato de o amar, de permanecer com Ele, de o acolher completamente na própria vida. 

Hoje respondeis com sinceridade à pergunta de Jesus. Alguns poderão dizer com Pedro: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo!” (Jo 21,16). Outros dirão: “Senhor, tu sabes como eu desejaria amar-te bem, ensina-me a amar-te, para poder seguir-te”. O importante é permanecer na via justa, continuar o caminho sem perder de vista a meta, até ao dia em que podereis dizer com todo o coração: “Tu sabes que te amo!”. 
Queridos jovens, amai Cristo e amai a Igreja! Amai Cristo como Ele vos ama. Amai a Igreja como Cristo a ama. E não esqueçais que o amor verdadeiro não põe condições, não calcula nem recrimina, mas simplesmente ama. Como podereis, de fato, ser responsáveis de uma herança que aceitais apenas em parte? Como participar na construção de algo que não se ama de todo o coração? A comunhão do corpo e do sangue do Senhor ajude cada um a crescer no amor por Jesus e pelo seu Corpo que é a Igreja. 


Por Beato João Paulo II